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HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA

Introdução

 A Educação Física é vista hoje como agente de saúde, estética, melhoria da condição atlética, recuperação física, dentre outras funções, mas nem sempre se pensou assim.
Os primeiros relatos de atividades físicas vêm desde a época pré-histórica, quando já se percebia uma preocupação pelo físico mais forte, porém, não com o intuito da beleza ou exercício e sim de proteção. Desde então a Educação Física se adaptava às épocas e sociedades na medida em que passava por mudanças e estágios, evoluindo a cada século para chegar à Educação Física que conhecemos atualmente.
A evolução da Educação Física acontece gradativamente à evolução cultural dos povos, estando interligada aos sistemas políticos, sociais, econômicos e científicos das sociedades.


Evolução da Educação Física ao longo dos tempos

Há milhões de anos...
Todas as atividades humanas durante o período pré-histórico dependiam do movimento, do ato físico. Ao analisar a cultura primitiva em qualquer das suas dimensões (econômica, política ou social), vemos, desde logo, a importância das atividades físicas para os nossos irmãos das cavernas.
Condenado a uma situação de nomadismo durante a maior parte de sua existência, o homem dependia de sua força, velocidade e resistência para sobreviver. Suas constantes migrações em busca de moradia faziam com que realizassem longas caminhadas, ao longo das quais lutavam, corriam, saltavam, escalavam e nadavam.
No começo, ainda absolutamente nômades, a caça e a pesca eram a base da sua economia. Posteriormente, iniciaram-se num processo de sedentarização, quando começaram a dominar técnicas rudimentares de agricultura e domesticação de animais.
A partir do instante em que o homem se sedentarizou, podemos registrar o início da luta pela posse de terras. É evidente que a fixação ao solo não se deu ao mesmo tempo e em todos os lugares. Fácil será deduzir o que acontecia quando hordas nômades encontravam, em suas peregrinações, os grupos sedentários. Os primeiros embates marcaram a vitória dos agressores, pois estes possuíam maior vigor física devido a sua atividade física mais intensa. Aqueles que já plantavam e criavam, ao instalar novos núcleos tratavam, agora, de aproveitar seus momentos de ócio num treinamento visando o sucesso diante de novos e possíveis ataques.
Uma das atividades físicas mais significativas para o homem antigo foi a dança. Utilizada como forma de exibir suas qualidades físicas e de expressar os seus sentimentos, era praticada por todos os povos, desde o paleolítico superior (60 000 a.C).
Além disso, os primeiros povos perceberam que o exercício corporal, produzindo uma excitação interior, podia levá-los a estados alterados de consciência. Acompanhadas por ruídos que tinham por fim exorcizar os maus espíritos, estas danças duravam horas ou mesmo dias, levando os seus praticantes a acreditar estarem entrando em contato com o poder dos deuses. As danças representavam um papel fundamental no processo da Educação, na medida em que se faziam presentes em todos os ritos que preparavam os jovens para a vida social. Este fato evidenciava-se nas danças rituais a partir do culto, pois a religião era a única preocupação sistemática na educação primitiva.
Entre os povos primitivos existem alguns poucos que conseguem atingir um estágio civilizatório. Estes pioneiros, surgidos há 6 000 anos e cujo número andou em torno de vinte, ainda mantiveram muitas características dos primitivos. Sua cultura, porém, evoluíra o suficiente para que se considerasse iniciado um novo período da História.

 Antiguidade Oriental: Nesse novo contexto, os exercícios físicos continuam merecendo o mesmo destaque alcançado na pré-história. Nessa época já é possível uma análise mais apurada das atividades físicas no berço desse novo mundo, agora civilizado, com seus feitos, registrados através da escrita. Podemos arriscar uma classificação onde identificaríamos finalidades de ordem guerreira, terapêutica, esportiva e educacional, aparecendo sempre a religião como pano de fundo, como em todas as realizações orientais.

Os chineses parecem haver sido os primeiros a racionalizar o movimento humano, emprestando-lhe, ainda, um forte conteúdo médico. Criaram, provavelmente, o mais antigo sistema de ginástica terapêutica de que se tem notícia: era o Kong-Fou (a arte do homem) - surgido por volta de 2700 a.C. - e praticado pela seita Tao-Tsé, onde a pessoa executava os movimentos nas mais diversas posições, obedecendo a certos critérios sobre respiração, tudo de acordo com a doença a ser tratada. Há que se ressaltar, ainda, o aspecto religioso dessa prática que, além de curar enfermidades do corpo, servia para torná-lo um "leal servidor da alma".

 A índia é reconhecida como a nação que conseguiu atingir o maior grau de elevação espiritual de toda a humanidade. Entre as práticas hindus, temos de destacar a yoga como a sua manifestação suprema. A yoga não é apenas um conjunto de exercícios ginásticos, mas uma doutrina que busca não só a purificação do corpo como também, através da meditação, facilitar a identificação do homem com a sua essência divina. Integra, portanto, o físico, o intelectual e o emocional, numa bela concepção do ser humano.

 Nessa fase da história da humanidade, vários povos destacaram-se pela formação guerreira que era dada aos seus cidadãos. Os egípcios - considerados por muitos historiadores como a mais antiga civilização - deixaram o seu registro principalmente através dos murais dos seus templos e dos monumentos funerários, bem como de todo o restante de sua inconfundível arte. As imagens mais numerosas são as de luta, que se constituem num mural escrupulosamente detalhado, como se formassem os quadros de um filme.  Estimulados por uma longa guerra de independência contra os hicsos, povo asiático que os dominou, os egípcios foram levados a se exercitarem aplicadamente para expulsar os invasores, provocando um treinamento muito rigoroso dos seus soldados. 

 Na região situada entre os rios Tigre e Eufrates estavam os sumérios, os caldeus ou babilônios e os assírios, que disputam com os egípcios a primazia histórica de haverem alcançado o momento cultural denominado civilização. Ferrenhos cultores da força e da resistência física, desenvolveram denodadamente a sua formação guerreira através de um adestramento no uso do arco e flecha, na prática da equitação, na luta etc. O aspecto guerreiro evidenciava-se, principalmente, entre os assírios, considerados os povos mais sanguinários da Antiguidade Oriental. Muito evoluídos culturalmente - eram hábeis engenheiros, matemáticos e astrólogos , os seus reis entregavam-se apaixonadamente ao desenvolvimento de suas instituições militares. O aspecto guerreiro merece uma referência especial, incrementado que foi pela crescente sedentarizacão. Motivado por elementos espirituais, serviam também para avaliar o nível de assimilação do treinamento físico dos jovens, marcando profundamente a Educação Física oriental antiga. No Oriente Próximo foi o Egito que, sem dúvida, atingiu o mais alto grau de aperfeiçoamento no terreno esportivo. As imagens que nos deixaram registram corpos fortes e esculpidos dentro de padrões estéticos comparáveis aos dos gregos. Suas práticas esportivas eram bastante diversificadas, sendo evidente a importância não só da luta, já comentada, como também da natação, remo, atletismo etc., constituindo um verdadeiro sistema de Educação Física.

 A China talvez seja a possuidora da mais antiga história do esporte e, seguramente, foi a que mais influenciou a Educação Física no Extremo Oriente. Os chineses foram hábeis caçadores, lutadores, nadadores, praticantes de esgrima, do hipismo e de um esporte que hoje chamaríamos futebol (tsu-chu). Deste, há registros que remontam ao III século a.C, servindo inicialmente para comemorar os aniversários dos imperadores, para depois contagiar a população.

Antiguidade Oriental:
A civilização grega marca o início de um novo ciclo na História com o nascimento de um novo mundo civilizado, agora o ocidental. É o descobrimento do valor humano, da sua individualidade e o início autêntico da história da Educação Física. A filosofia pedagógica que determinou os caminhos a serem percorridos pela educação grega tem o grande mérito de não divorciar a Educação Física da intelectual e da espiritual. Postulava, dessa forma, o mais significativo de todos os princípios humanistas, considerando que o homem é somente humano enquanto completo. Apesar de não ter o mesmo peso em todo o decorrer da sua história, as atividades físicas sempre puderam ser consideradas como elemento característico na escalada cultural do povo helênico, em qualquer dos seus momentos.

 O primeiro desses momentos foi consignado pelos poemas de Homero (Ilíada e Odisséia). A educação desta fase (1200/800 a.C), embora não possuísse uma organização institucionalizada, presumia o ideal da sabedoria e da ação; aquela era representada por Ulisses, esta por Aquiles. A origem dos famosos Jogos Gregos - entre eles, os Olímpicos - está situada neste período e materializada nos "jogos fúnebres''. Entre estes destacam-se os que foram mandados celebrar por Aquiles em homenagem a seu amigo Pátroclo, morto por Heitor. Estes Jogos constaram de oito provas: corrida de carros, pugilato, luta, corrida a pé, combate armado, arremesso de bola de ferro, arco e flecha e arremesso de lança, demonstrando o ecletismo a que estavam submetidos os atletas-heróis nesse período.
 A par dos exercícios que levassem a um bom desempenho atlético da aristocracia guerreira, grande privilegiada dessa época, aprendiam também as artes musicais e a retórica. Em se tratando de tempos heróicos, a educação era marcadamente guerreira.    Tinha como traço essencial o mais alto ideal cavalheiresco e o desejo de ser sempre o melhor, que vieram a caracterizar o povo grego.

 O momento que se segue ao homérico é o chamado histórico (800/500 a.C), com a formação das cidades-estados. Dentre estas, Esparta e Atenas, representando o jogo de antagonismos ideológicos fadado a definir a evolução político histórica da Grécia Antiga.  
 Esparta, a cidade mais desenvolvida neste período, representa uma espécie de anti-humanismo grego. Os seus ideais totalitários levavam os cidadãos a um devotamento ao Estado e a uma subordinação absoluta à vontade dos superiores. A educação espartana pode ser analisada como um prolongamento da que existiu na época homérica. Perpetuava a formação cavalheiresca, militar e aristocrática, com um sensível desprezo pelo aspecto cultural, este tomado no seu sentido mais amplo. Estado guerreiro - todos deviam ser soldados - alimentava uma política de eugenismo que outorgava a uma comissão de anciãos o direito de condenar os nascidos raquíticos e disformes. Suas mulheres eram formadas robustas, enrijecidas moral e emocionalmente, prontas a cumprirem o seu papel de reproduzir espécimes perfeitos em nome do melhoramento da raça.
 Nessa época surgem os grandes Jogos Gregos, dos quais participava toda a comunidade helênica: Píticos, Nemeus, ístmicos e, especialmente, os Olímpicos, criados em 776 a.C, em homenagem a Zeus. Estes jogos eram festas populares e religiosas, que envolviam, além de competições atléticas, provas literárias e artísticas. Os gregos possuíam cidades que eram estados independentes. Somente três situações marcavam um espírito verdadeiramente nacional: a iminência de um perigo externo, a religião e estas formidáveis festas esportivas. Por ocasião da época da realização destas últimas, tudo parava - inclusive suas lutas internas - em nome da honra maior da participação esportiva. O estilo de educação adotado em Esparta levava os seus atletas a vencerem a maior parte das provas de que participavam, pelo menos nos primeiros séculos de sua história. Assim, de 720 a 576 a.C, dos oitenta e um vencedores olímpicos de que se tem registro, quarenta e seis são espartanos. Na prova de corrida de velocidade, dos trinta e seis campeões conhecidos, vinte e um têm a mesma origem.

A história da Educação Física em Atenas, neste período de formação histórica, é bastante significativa. Podemos constatar o lugar peculiar que a ginástica e o atletismo ocupavam, tal qual em Esparta. A educação ateniense não tinha, porém, o caráter eminentemente militar que caracterizou a vida espartana. Os atenienses, descendentes dos jônios, povos amantes da cultura, não tinham o espírito guerreiro que os seus irmãos espartanos herdaram de antepassados dórios. Por estas raízes, a prática esportiva em Atenas subsistirá como um meio de formação do homem total, não se prestando apenas como preparação para a guerra. É de Sólon, legislador ateniense do começo do século VI a.C, o conselho: "As crianças devem, antes de tudo, aprender a nadar e a ler".
 O modelo ateniense vem servir de paradigma para todo o mundo grego, à exceção óbvia de Esparta. Os seus locais para a prática esportiva, comparáveis aos de hoje, serviam não apenas à Educação Física como também para a formação intelectual do povo, salvo os escravos. Os ginásios, palestras e estádios possuíam grandes acomodações para o público, o que denota o interesse popular despertado pelo esporte. Um corpo docente, organizado e hierarquizado, conduzia administrativa e tecnicamente as atividades dos praticantes. O ginasiarca era a figura mais importante, sendo uma espécie de reitor da Educação Física e, quase sempre, da educação intelectual. Eleito pela comunidade, ele dirigia alguns dos ginásios e, em alguns lugares, todos os ginásios da cidade. O pedótriba corresponde ao que hoje chamamos de professor de Educação Física e estava equiparado em cultura e prestígio ao médico. Era também o responsável pela formação do caráter dos jovens efebos.
O período clássico ou humanista (500/338 a.C.) é o terceiro momento da história grega e marca o aparecimento dos primeiros grandes filósofos do mundo ocidental. Com a Filosofia, nasce também a Pedagogia, entendida de um modo mais sistemático e racional. A partir desse período, a Educação Física não ostenta o mesmo realce dos momentos que o antecederam, mas ainda aqui continua a merecer um destaque no plano educacional grego. Aristóteles também valorizava o papel da ginástica, dando lhe um cunho científico, quando diz que "a ciência da ginástica deve investigar quais exercícios são mais úteis ao corpo, segundo a constituição física de cada um".  Os exercícios físicos praticados pelos gregos tinham um caráter natural. Os seus esportes eram basicamente fundamentados no atletismo (correr, saltar e lançar) e realizados em total estado de nudez (ginástica significa a "arte de desenvolver o corpo nu"). Isto tudo sem o descuido dos aspectos fisiológicos que as atividades merecem e, principalmente, o cuidado estético que distinguia o homem grego. A concepção de educação era baseada na comunhão do corpo e do espírito, o que a tornava a mais humanista de todas.
Decadentes ao final do século V, em função de cisões e lutas internas que os enfraqueceram, os gregos deixaram-se dominar, inicialmente pelos macedônios (338 a.C.) e, posteriormente, pelos romanos (146 a.C).  Este interregno, que representa o último capítulo da história da Grécia Antiga, é chamado de helenístico. A educação dessa época valoriza cada vez mais o intelectual, com um crescente desinteresse do físico e do estético. O declínio da civilização grega fez-se refletir em todos os setores da sua cultura. A prática das atividades físicas vai perdendo todos os seus ideais humanistas que talvez tenham sido o mais belo exemplo já inscrito na história da Educação Física. Os atletas começaram a especializar-se prematuramente, contrariando os objetivos educativos, estéticos e de saúde que foram tão tenazmente perseguidos durante séculos. Surge a profissionalização e, com ela, a corrupção dos atletas e juizes, numa evidente traição aos princípios que haviam forjado a grandeza da civilização helênica.
Roma foi a herdeira direta de dois povos, os etruscos e os gregos. Dos etruscos, os romanos receberam influxos determinantes, principalmente no campo artístico e esportivo. Mas foi dos gregos a influência mais significativa, respeitadas as particularidades do homem romano. Este nunca se entregava às suas práticas por puro diletantismo. Impregnado por um realismo que o distinguiu na Antiguidade Clássica, todas as suas realizações culturais estavam marcadas por um espírito eminentemente utilitarista. O estímulo a realizações pessoais não se fez presente, dando lugar ao ideal coletivo que caracterizou o mundo romano.

 O local onde, originariamente, os romanos praticavam suas atividades físicas era o gigantesco Campo de Marte, que media 3 km de extensão por 1,5 km de largura, onde mais tarde foram construídas algumas das mais importantes instalações esportivas. Tão próximos e tão distantes dos gregos, era aí que os jovens romanos se reuniam e passavam por um adestramento capaz de habilitá-los para o cumprimento dos seus ideais expansionistas e do seu compromisso cívico. Apesar da escassa documentação sobre o início da história romana, sabemos que praticavam a equitação, corridas de velocidade e resistência, natação, pugilato, luta, arco e flecha e esgrima, entre outros.
Em Roma não vamos encontrar atividades que tenham a mesma expressão do esporte grego. Ludus tinha a conotação de treinamento ou de jogo, não implicando necessariamente competição. Os participantes desses jogos eram atletas profissionais que nem de longe podiam ser comparados aos padrões éticos e estéticos dos seus colegas gregos. A ginástica perdeu o sentido do belo, prestando-se apenas para formar um protótipo de virilidade. A aspiração humanista que animava o esporte grego jamais contagiou o cenário romano, mais identificado com os circos, anfiteatros e termas do que com os ginásios, palestras e estádios.

 A história da Educação Física em Roma pode ser contada à luz da análise das suas instalações esportivas, onde eram realizados os seus ludi. A mais antiga de todas foi o circo, concebido para a realização das corridas de carro - a grande paixão dos romanos -, além de corridas a pé e lutas. O mais antigo e amplo desses circos foi o Máximo, construído ainda no período monárquico (até 509 a.C.). Ali podiam ser acomodados 385 000 espectadores.
O anfiteatro tem suas origens já no final do período republicano (509/27 a.C.) e foi idealizado para abrigar festas religiosas e populares. O mais famoso dentre eles foi o Coliseu, comportando mais de 100 000 pessoas.
Os romanos, já sob a influência grega, também edificaram os seus estádios. Estes, que foram o principal cenário dos Jogos Olímpicos, não desfrutaram a mesma grandeza em terras romanas. Na verdade foram conhecidos juntamente com a introdução do esporte helênico em Roma (186 a.C.) e estavam destinados às competições atléticas e às lutas. Os romanos copiaram, porém, um modelo já decadente, sendo levados a uma prática deformada. Não perceberam que a grandeza do esporte não estava na sua simples prática, mas sim no espírito que a animava.
 Cabe ainda uma referência especial às termas, as instalações mais importantes da época imperial, que serviam para preencher a ociosidade provocada pelo enriquecimento das conquistas. No começo da era cristã, o número de termas girava em torno de oitocentos, algumas capazes de receber milhares de pessoas simultaneamente. Luxuosíssimas, essas casas de banho não mais cumpriam suas finalidades higiênicas e simbolizavam o   relaxamento dos costumes que caracterizou o declínio do imperialismo romano. A moral romana, que havia repudiado a nudez do atleta grego, permitia, agora, a frequência até de suas crianças nas termas, em lugar dos ginásios gregos.
 Em meio a essa catástrofe pedagógica, existem aqueles que, em nenhum momento, perderam a lucidez, conseguindo cultivar o espírito humanista da educação grega, é o caso de Juvenal, poeta satírico romano do século II d.C. que, reencarnando concepções platônicas, rogou: "ê preciso pedir aos céus a saúde da alma com a saúde do corpo".
A Idade Média tem início com a divisão do Império Romano por Teodósio I - o mesmo que, dois anos antes, abolira os Jogos Olímpicos - ou, para outros, com a queda do citado Império no seu lado ocidental. A época medieval teve duração milenária, somente terminando com a queda da capital oriental. Nesses idos vemos a Igreja como a única instituição que resistiu e, mais ainda, fortificou-se após as invasões bárbaras. Afogado em crenças e dogmas religiosos, surge um homem que só era encorajado à conquista da vida celestial. O total descaso pelas coisas materiais estabelecia um absoluto divórcio entre o físico e o intelectual. Como se num agravo a Juvenal, só convinha a saúde da alma, onde o "nada para o corpo" era um princípio que suprimia a Educação Física do  horizonte cultural  desse  momento histórico. Pode-se analisar a época medieval submetendo-a didaticamente a uma divisão em dois períodos. O primeiro deles (Alta Idade Média) vai até o século X e foi marcado por um grande obscurantismo cultural, fruto da decadência romana e das invasões dos povos bárbaros. O segundo (Baixa Idade Média) começa no século XI e estende-se até o décimo quinto século da era cristã. Este último período não justifica o rótulo de "idade das trevas" com que muitos indiscriminadamente observam a idade medieval. A partir do século XI aparecem grandes personalidades como Roger Bacon, Dante Alighieri e São Tomás de Aquino. Este foi o mais influente dos pensadores de um tipo de vida intelectual que predominou entre os séculos XI e XV. O movimento escolástico muito contribuiu para a criação das Universidades no século XIII e, juntamente com elas, preludiou o Renascimento.
Para que se possa entender a cultura medieval - inclusive as suas restrições no âmbito pedagógico - é necessário considerar o feudalismo, um sistema político-social-econômico gestado no século IX, germe do capitalismo.   O regime feudal dava o direito de governar a quem possuísse terras que, por sua vez, geravam "empregos" denominados feudos. Escravizados à terra, fonte de toda a riqueza, os servos eram os únicos que trabalhavam na sociedade feudal, produzindo para as classes dominantes o clero e a nobreza. Foi um período em que pouco se fez para o ser humano, enquanto pessoa. Oprimidos e explorados, os servos representavam muito pouco para os seus senhores, haja vista que um camponês, muitas vezes, tinha menos valor do que um cavalo.
Vem da época medieval, com o monopólio educacional exercido pela Igreja, o tradicional conceito de educação como disciplina. A Educação Física, apesar de não merecer um destaque especial, recebeu uma atenção cuidadosa na preparação dos cavaleiros.  A Cavalaria era uma instituição militar destinada a uma minoria, quase sempre aristocrática, visando o fiel cumprimento de proteção aos proprietários de terra. Os cavaleiros recebiam um treinamento onde o xadrez era a única prática intelectual, havendo muitos deles que não sabiam ler nem escrever.  Eram muito hábeis na equitação, caça, esgrima, lança e arco e flecha.  Os torneios e as justas representam a culminância dos exercícios físicos dos cavaleiros medievais e serviam, nos tempos de paz, como preparação para a guerra. O homem medieval, que havia abominado os espetáculos do circo e do anfiteatro, assistia agora àqueles combates simulados, cujos desfechos eram quase sempre trágicos.
O Renascimento foi um movimento intelectual, estético e social que representou uma reação à decadente estrutura feudal do início do século XIV. Representou uma nova concepção do mundo e do homem, havendo um redescobrimento da individualidade, do espírito crítico e da liberdade no ser humano. O reconhecimento desses traços de individualidade devolveu à criatura humana o papel de protagonista: é o antropocentrismo, em oposição ao teocentrismo medieval. Inspirado nas obras da Antiguidade Clássica, esse humanismo renascente voltou a valorizar o belo, resgatando a importância do corpo. A Educação Física torna a ser assunto dos intelectuais, numa tentativa de reintegração do físico e do estético às preocupações educacionais.
Um sem-número de pensadores renascentistas dedicou suas reflexões à importância dos exercícios físicos. Da Vinci escreveu Estudo dos movimentos dos músculos e articulações, um dos primeiros tratados de biomecânica que o mundo conheceu. Rabelais defende práticas naturais para a educação e, por isto, os jogos e os esportes deviam ser explorados. Montaigne exaltava a importância da atividade esportiva, quando defendia que não só a alma deve ser enrijecida, mas também o corpo. Francis Bacon defendia a execução de exercícios naturais, havendo estudado a manutenção orgânica e o desenvolvimento físico pelo aspecto filosófico.
Todos foram precursores de uma nova tendência e avalizaram a inclusão da ginástica, jogos e esportes nas escolas. Suas ideias fertilizaram o campo onde, na segunda metade do século XVIII, foram fundamentados os alicerces da Educação Física escolar.
Entre os pensadores que, numa fase pós-renascentista, influenciaram a Educação e, consequentemente, a Educação Física, não podemos deixar de fazer uma referência especial a Locke e a Rousseau. O antagonismo de suas ideias marcou um cotejo que acompanha o pensamento educacional até a atual idade.
Locke foi o grande representante de uma teoria que formulava um conceito disciplinar de educação. Em contrapartida, Rousseau seria o líder de uma tendência naturalista para o terreno pedagógico. Para Locke, a educação utilizaria a repressão e a disciplina das tendências naturais, tendo como objetivo principal a formação do caráter. Rousseau, por sua vez, não acreditava que a educação tivesse como objetivo principal instruir, reprimir ou modelar o ser humano. Referindo-se à sua personagem Emílio, afirma que, ao final, ele não seria um soldado, um sacerdote, nem um magistrado: seria antes de mais nada um homem. Ambos deram destaque à Educação Física como elemento da Educação. Locke dispensa-lhe uma orientação médica, aconselhando que as crianças sejam sujeitas a um regime de vida bastante rigoroso, condição essencial para a manutenção da saúde. Rousseau, assim como Locke, dedicou especial atenção aos exercícios físicos para as crianças. Sua teoria evidenciava os aspectos benéficos da vida do campo e ao ar livre, com a prática de jogos, esportes e ginástica natural.

 A Idade Moderna continuou o seu caminho, trilhado ao longo dos 200 anos que separaram o Renascimento dos tempos contemporâneos. É no século XVIII onde podemos encontrar os reais precursores de uma Educação Física que iria se firmar no horizonte pedagógico do século seguinte. Basedow fundou (1774) na Alemanha o primeiro estabelecimento escolar - desde a Grécia Clássica - com um currículo onde a ginástica e as disciplinas intelectuais tinham o mesmo peso. Oriundo da escola de Basedow e também imbuído do mesmo espírito humanista de inspiração rousseauísta, Salzmann funda (1784), também na Alemanha, outra escola que reconheceu valores pedagógicos nos exercícios físicos. Também influenciado por Rousseau e considerado o fundador da escola primária popular, vislumbramos a figura de Pestalozzi. Interessou-se por Educação Física, chegando a fazer incursões até mesmo no campo da metodologia. Pestalozzi orientou a ginástica por parâmetros médicos, objetivando correções de postura.

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