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ASPECTOS DO LAZER: TEMPO E ATITUDE



Nas reivindicações das associações de moradores, nos luminosos das lojas, nos anúncios de imobiliárias, nas propostas dos candidatos a cargos públicos, nos títulos das revistas, nas seções dos jornais, e em muitas outras situações da vida cotidiana, a palavra “lazer” vem aparecendo com uma frequência cada vez maior, que não se verificava até bem pouco tempo atrás, pelo menos com tanto destaque.
Isso faz com que seja quase inevitável, quando se aborda de maneira específica a temática do lazer, iniciar-se destacando os vários entendimentos que a palavra comporta na nossa sociedade, motivados pela incorporação relativamente recente do termo ao vocabulário comum.
Além disso, não se pode deixar de considerar que se trata de um termo carregados de preconceitos, motivados por um pretenso caráter supérfluo dessas atividades, contrapondo-se à nossa situação socioeconômica, e pela sua utilização como instrumento ideológico, contribuindo para o mascaramento das condições de dominação as relações de classe, mantendo viva a expressão “Pão e circo”.
Com relação à utilização da palavra “lazer” o que se verifica, com maior frequência, é a simples associação com experiências individuais vivenciadas dentro de um conceito mais abrangente que caracteriza a sociedade de consumo, o que, muitas vezes, implica a redução do conceito a visões parciais, restritas aos conteúdos de determinadas atividades.
Dessa forma, para algumas pessoas lazer é futebol, para outras é pescaria, ou jardinagem etc. etc.
O uso indiscriminado ou impreciso da palavra, englobando conceitos diferentes e até mesmo conflitantes, fundamenta a necessidade de tentar precisa-lo, no sentido de orientar discussões que contribua para o seu entendimento e significado na vida cotidiana de todos nós.
Apenas pelo exemplo citado percebe-se que o entendimento do lazer não pode ser estabelecido somente a partir do conteúdo da ação, ou pelo menos que ele não constitui condição suficiente para a conceituação.
Se para algumas pessoas o futebol, a pescaria, a jardinagem constituem atividades de lazer, certamente isso não se verifica, em todas as oportunidades, para o jogador profissional, o pescador que depende da sua produção ou para o jardineiro.
Além disso, aquilo que pode ser altamente atraente e prazeroso para determinada pessoa, não raro significa tédio ou desconforto para outro indivíduo.
Assim, as circunstancias que cercam o desenvolvimento dos vários conteúdos são básicas para a caracterização das atividades.
Nesse particular, podem ser destacados como fundamentais os aspectos tempo e atitude.
O lazer considerado como atitude será caracterizado pelo tipo de relação verificada entre o sujeito e a experiência vivida, basicamente a satisfação provocada pela atividade.
O lazer ligado ao aspecto tempo considera as atividades desenvolvidas no tempo liberado do trabalho, ou no “tempo livre”, não só das obrigações profissionais, mas também das familiares, sociais e religiosas.
Apesar da polêmica sobre o conceito, a tendência que se verifica na atualidade entre os estudiosos do lazer é no sentido de considera-lo tendo em vista os dois aspectos – tempo e atitude.
A consideração no aspecto tempo na caracterização do lazer tem provocado uma série de mal-entendidos. Um deles diz respeito ao conceito “livre” adicionado a esse tempo. Considerado do ponto de vista histórico, tempo algum pode ser entendido como livre de coações ou normas de conduta social. Talvez, fosse mais correto falar em tempo disponível. Mesmo assim, permanece a questão da consideração do lazer, como esfera primitiva e controlada da vida social, o que provocaria a morte de lúdico, e a ocorrência do lazer marcada pelas mesmas características alienantes verificadas em outras áreas de atividade humana.


AINDA SOBRE TEMPO E ATITUDE

Conforme já verificamos anteriormente, a consideração dos aspectos tempo e atitude é fundamental para o entendimento do âmbito do lazer. Já colocamos, inclusive, que essa consideração não deve ficar isolada num único desses aspectos, mas sim combiná-los, uma vez que o simples isolamento de cada um pode provocar uma série de equívocos, decorrentes de situações nebulosas.
Dessa forma, o lazer encarado apenas como atitude, como um estilo de vida, fica na dependência exclusiva da relação da pessoa envolvida com a atitude. E, assim, qualquer atividade poderia ser considerada lazer, até mesmo trabalho, desde que atendesse a determinadas características, como a escolha individual, e um nível de prazer e satisfação elevados. Ora, sabemos que para grande maioria da população o trabalho não pode ser assim considerado, e mesmo para a minoria privilegiada em termos de escolha e satisfação profissional, o componente de obrigação é marcante, principalmente em nossa sociedade, que valoriza sobretudo a produtividade. Esse componente de obrigação está presente em uma série de outras atividades, como as familiares, os compromissos sociais, religiosos etc. Talvez o ideal fosse caminhar em busca da gradativa eliminação do componente obrigação em todas as atividades, mas a história tem demonstrado que ele é uma constante, variando em suas formas.
Por outro lado, a consideração isolada do aspecto tempo traz uma série de interrogações. Por exemplo: como poderiam ser consideradas as atividades desenvolvidas no tempo em que o trabalhador se desloca do local de trabalho para o local de moradia, ou vice-versa?
Como considerar as ações prazerosas desenvolvidas no âmbito do tempo dedicado as obrigações familiares?
Outras questões se colocam quando o lazer é examinado levando em conta o aspecto tempo. Que tempo é esse? Quais as suas características?
Antes de mais nada, o tempo de lazer encontra-se não em oposição, mas em relação com o tempo das obrigações. Sobretudo com as profissionais – com o trabalho. E aqui algumas questões podem ser colocadas, apenas a título de exemplo: o tempo do desempregado, ou o tempo do grevista poderiam ser considerados como lazer? A questão que pode, à primeira vista, parecer fora de propósito é bastante atual, quando se analisa programas de lazer desenvolvidos por determinadas organizações, tentando preencher o tempo do desempregado com atividades “sadias”, ou quando se discute a reposição da produção do grevista, após o período de greve.
Considerando apenas a esfera das atividades profissionais – do trabalho, o tempo do lazer situa-se no “tempo liberado”, portanto supõe a sua existência. Dessa forma, o tempo gerado pelo desemprego nunca poderá ser considerado tempo liberado, mas sim tempo desocupado. E desocupado devido a incapacidade do sistema econômico gerar trabalho. Além disso, pelas próprias características da situação de desempregado, a pessoa nessa circunstância não tem condições de desenvolver atitudes favoráveis para o desenvolvimento do lazer.
Por outro lado, o tempo despendido numa greve é utilizado pelo trabalhador para o aperfeiçoamento de sua organização, tendo em vista o atendimento de suas reivindicações profissionais e sociais, que, em última análise, contribuirão para o seu desenvolvimento quer enquanto pessoa, quer enquanto trabalhador. Assim, a questão da reposição do trabalho não pode ser considerada de modo simplificado, mas levando em conta também os reflexos da interrupção do trabalho na retomada das atividades. No âmbito específico do lazer, a reposição significa perdas em termos das conquistas dos trabalhadores – ainda tímidas -, uma vez que, em última análise deve ser entendida como acréscimo de atividades profissionais no tempo “liberado” do trabalhador.
Deve-se considerar, ainda, que da mesma forma que o desempregado, o grevista também não tem condições de desenvolver atitudes favoráveis ao lazer.


Estudos do lazer – Nelson Carvalho Marcelino

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